domingo, 13 de abril de 2008

Fim de tarde

Mais um final de semana em casa: sem companhia, sem inspiração para escrever, sem um destino. Ninguém para conversar, nada em mente que lhe sirva de desculpa - além da habitual falta de assunto - e nenhum rumo a ser tomado ao longo do dia. A leitura habitual, a espera por alguém que não irá aparecer, o cansaço e o tédio corriqueiros. A ansiedade por algo que não vai acontecer.
A mesma música, tocada diversas vezes, apostilas jogadas sobre a cama alinhada e o relógio à frente, marcando a passagem do tempo; tempo esse em que nada acontece.
A busca por algo que faça sentido, a incerteza de ser encontrada por alguém que anseie sua companhia, o desejo de um convite para sair. O dia já conta com a sua décima oitava hora, mas ainda há uma chance de que algo aconteça.
Levanta, menina! Vai côlher sorrisos pela rua, colorir a grama com a lama das suas pegadas, andar no sereno que a noite lhe oferece. Vai... Põe aquela roupa de festa, afinal, todos os dias lhe reservam alguma surpresa. Sai! Busca encontrar um alguém especial, talvez aquele amigo com quem não conversa há muito. Conta a ele todos os seus problemas, chora de rir se possível for. Vive com ele seus melhores momentos, até que lhe seja possível viver momentos melhores.
Faz desse dia um momento especial e desse amigo um porto seguro. Segura a sua mão e sente que não estás sozinha; convida outros amigos para um bate-papo, marca de encontrá-los em algum lugar. Divirta-se como nunca fôra possível e assim, seja verdadeiramente feliz; ao menos, por hoje.

sábado, 5 de abril de 2008

Ainda sobre amizade

O problema de uma afirmação generalista é que ela pode excluir certos elementos que se queria que estivessem incluídos. Quando digo que todo cão late e do nada encontro um bicho que, a despeito dessa afirmação, não late mas que é um cão, as idéias entram em conflito. Por isso cabe dizer agora que Carlos é um gato, um gato preto e vira-lata, sem nenhuma marca física que o distingüa de outros tantos gatos pretos e vira-latas. É esse gato preto que está com José agora no elevador, um elevador como vários outros, do prédio onde a dois dias moram ambos. Estão em uma conversa animada, José gesticula alegremente com a mão que não segura Carlos, falando da programação do dia, Iremos ao cinema, talvez depois a uma sorveteria por perto mesmo, não sei a que filme assistir, faz diferença pra você Carlos, eu pensei em um suspense, o que você acha. O elevador pára no andar logo abaixo, a atenção dos dois se desvia para esse processo, no final do processo, uma mulher, não mais de vinte e cinco anos, morena de cabelos negros, não mais de um metro e cinquenta e seis centímetros, com seios médios, coxas bastante interessantes, opinião de José, e com um perfume levemente floral e doce. Uma doçura que penetra nos poros e ameaça arrancar a pele quando a fonte se vai. Essa fonte ficou. Uma mulher, José e Carlos em um elevador. A mulher olhava constantemente para José, que constantemente olhava para baixo, Carlos estava alheio à situação. Num instante, apenas um instante em que José levantou a cabeça e fitou a mulher, atrás de sua bunda, os olhares foram trocados e ela sorriu. Não deve haver muitos sorrisos como esse, um sorriso que impediu José de continuar sua busca pela beleza mais baixa, pois lá há beleza, um sorriso que raptou os olhos de José, que os manteve cativos por ter do mundo retirado todo o brilho e nitidez para depositá-los em si. Enquanto os olhos de José estavam presos e Carlos se contorcia enjoado pelo doce da mulher, os gatos não devem ter tantos poros quanto os homens, ela perguntou lançando carícias em Carlos, O gato tem telefone. Há diferença entre a resposta verdadeira e a correta, José escolheu a verdadeira, e sorrindo bobamente falou, Não. É verdade, o gato não tem telefone. O sorriso foi desfeito, o mundo teve de volta seu brilho e nitidez, o botão do próximo andar foi apertado e ela desceu, levando alguma parte de José, antes de seu destino programado. Tudo isso, pareceu ao homem, ocorreu em um segundo. Antes de sair a mulher ainda disse, Idiota, fala a que Carlos fez coro e contínuou, Idiota, como você dá uma resposta dessa, como você pode ser tão burro, ela estava te querendo, seu nada, acorda, idiota. José totalmente atônito por ser a primeira vez que ouvia tanta grosseria vinda de Carlos, só conseguiu pronunciar, Mas ela perguntou por seu número. O gato se resignou a miar.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Rascunho

Por que eu não posso apenas sentir, como todos os outros? Por que eu pareço tão confusa? De me sentir bem, feliz, aceita... por que é tão difícil acreditar ser capaz? Quanto mais penso nisso, mais sou levada a questionar minhas verdadeiras razões. Por que é tão difícil seguir os próprios conselhos? Talvez por que opinar seja sempre mais fácil que agir.
Por que é tão cruel essa dor que sinto quando você vai porta afora? Por que sua imagem vem à minha mente sempre que penso em felicidade? Por que sempre me escondo atrás de falsos sorrisos? Quem me ensinou a ser assim?
Não sei. Talvez nunca saiba. Mas enquanto não encontro as respostas, vou vivendo a vida do jeito que ela me fora ensinada.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Liga a tv!

Naquela manhã havia acordado febril, como quem espera gripar logo em seguida. O corpo dolorido sugeria uma semana em casa. "Não vou poder ir pra escola hoje".

- É, Luizinho... a mamãe sabe. Vou falar pra sua irmã pedir a agenda à professora.
- Diz à tia Lila que amanhã eu vou.
- Só se estiver melhor, querido. Se continuar com febre, vai ficar mais um tempinho em casa.

Assim que deixa o quarto do garoto, dona Camila vai até o armário azul do seu quarto, buscar um termômetro que comprara dias atrás.

- Mãe!
- Que é, Luizinho?
- Quero ver televisão!
- Já vou ligar pra você.

[duas horas depois]

- Mãe, com fome.
- Vou pegar alguma coisa pra você comer.

[mais tarde]

- Mãe! com sede!
- Já indo!

Tempos depois, dona Camila traz o prato de Luizinho, que se recusa a comer os legumes. "Não, mãe. Você sabe que eu não gosto".

- Liga a televisão!
- Mas não está passando desenho essa hora...
- Coloca aquele DVD que a gente comprou semana passada, no mercado.

[Juliana chega da escola]

- E aí, trouxe a agenda?
- Tá aqui.
- Vai trocar de roupa pra almoçar.

[...]

- Vamos fazer o dever de casa, Luizinho?
- Agora não, mãe... tão cansado!
- Cansado de que, menino? Você não fez nada o dia inteiro...
- É que ficar doente dá muito trabalho, mãe!

terça-feira, 25 de março de 2008

Concorda comigo?

- Mãe! A Rosana fez uma tatuagem tão linda... Eu queria fazer uma também.
- Quantas vezes eu vou ter que lhe dizer não?
- Deixa, por favor!
- Não é não, Gabriela. E não insiste!
- Ah... Lembra da Silvinha?
- Silvinha?
- É, mãe! Aquela ruivinha que dormiu aqui em casa algumas vezes.
- Ah, sim... Lembro. O que é que tem ela?
- Tá grávida.
- Minha nossa! Tão novinha...
- Pois é!
- Eu nem imagino a reação dos pais dela quando souberam.
- Mas eles não sabem.
- Não?
- Não. Ela pretende tirar antes que mais alguém fique sabendo.
- A Silvinha é doida? Como ela vai fazer um negócio desses?
- Eu disse a ela que era errado, mas ela não me escuta!
- Quando ela pretende tirar?
- Não sei, mas acho que não vai demorar muito pra que ela faça isso.
- Alguém precisa impedi-la. Ela não pode fazer essa loucura. Além de tudo, o aborto é um ato criminoso!
- Ela sabe, mãe. Mas está tão desesperada...
- Nossa! E o namorado da Silvinha?
- Ela não tem namorado.
- Não? O pai da criança, sei lá!
- Ela não sabe quem ele é.
- Nossa! Essa Silvinha, também! Ô menina sem juízo, essa sua amiga. Ei, mas... espera!
- Quê?
- A sua amiga ruivinha não se chama Sofia?
- Er... Ahn...
- Gabriela! O que é isso na sua cintura?
- Er... Uma tatoo.
- Quantas vezes eu lhe disse que se colocasse tatuagem eu tiraria com a faca?
- Ah, mãe... Pior seria se eu estivesse grávida, não acha?

segunda-feira, 24 de março de 2008

No meio da noite

São duas e meia da madrugada e o meu celular está tocando.

- Não vai atender?
- Não. Será que o infeliz que tá ligando não percebe que já é tarde? Daqui a pouco, desiste.

Viro pro lado. O celular continua tocando. Viro novamente.

- Que saco! Esse povo por acaso não sabe que horas são?
- Atende!
- Não.
- Se você não atender, vão continuar insistindo.
- Que saco!

Pego o celular, que pára de tocar.

- Desistiu.

Volto a deitar. No instante em que tudo parece calmo, ele toca novamente. Impaciente, pego o celular e desta vez consigo atendê-lo.

- A cobrar? Mas é muita cara de pau!

Desligo. O celular toca, insistente.

- A cobrar, de novo?
- E se for importante?
- Alguém me ligando a cobrar, essa hora?
- Atende, vai! Já estamos acordados mesmo...

[Gravação]

- Pois não?
- Natália?
- Não. É engano!

Desligo. [...] O celular toca mais uma vez.

- Que inferno! [...] Meu querido, eu já disse que não existe nenhuma Natália aqui!
- Não, por favor... Não desliga o celular!
- Olha aqui... São duas da manhã [olho pro relógio]; aliás, duas e meia, e você quer ficar jogando conversa fora?
- Desculpa. É que a minha esposa viajou e estou na rua, sem chave.
- Sinto muito, mas não posso lhe ajudar.
- Por favor... Chama um chaveiro pra mim.
- Como é que é?
- É que eles não aceitam ligações a cobrar e nenhuma das outras pessoas com quem tentei falar me atendeu.
- Por que não me espanta o fato de não terem lhe atendido?
- Por favor!
- Tudo bem. Dá seu endereço. [...] 'Benhê', dá uma folha de papel!
- Rua das Acássias, 325, apartamento 32.
- Tudo bem, vou mandar o chaveiro. Boa noite.
- Obrigado e desculpa o incômodo.

Olho pro meu marido, que ri com o que acaba de ler.

- Você sabe com quem estava falando?
- Faço a mínima idéia!
- Você não lembra quem mora nesse endereço? [E me estende o papel...]
- Não.
- O seu primo, Adalberto.

quarta-feira, 19 de março de 2008

'Me' explica!

Pára de olhar pra mim como se soubesse o que estou sentindo! Não vê que são apenas lágrimas o que trago nos olhos? A angústia que supõe ter visto é fruto da incerteza que traz com você. Eu nunca perco o controle nem me deixo abater facilmente. Pelo menos, até agora...
Por que você não me abandona? Por que não vê que tudo o que lhe peço é apenas isso? Desejo que vá embora; procure um outro alguém. Talvez aquela com quem estava antes de encontrar-se comigo. Por que ainda lhe ouço chamar meu nome? Já não lhe disse ser esta uma palavra proibida? Por que ainda lhe desejo perto? Talvez porque não me canse de sofrer.

terça-feira, 18 de março de 2008

Futuro simples e terceira do plural

Mesmo distante, saiba que a cada momento a sua lembrança me acompanhará e será o meu consolo. Sua imagem tornará confortável todo o restante dos meus dias, ao menos aqueles em que a sua ausência não insistir em desgraçar de vez. O seu sorriso estará para sempre vivo na minha memória e a cada novo dia eu o ansiarei novamente. Em meus olhos guardarei a cor dos dias floridos em que passeamos juntos por entre as vielas dessa cidade, que agora está triste, sem você. Eu sofro... E assim vou vivendo, aguardando o dia em que nos encontraremos no infinito. Sinto como se pudesse me ouvir... Meu desabafo talvez lhe cansasse os ouvidos, mas jamais saberei, já que não pode me responder. Eu lhe sinto aqui e agora, tão presente em mim! Mesmo estando perto, sentirei saudades.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tenho medo

Tenho medo de sair sozinha,
de ser violada,
de me perder nas ruas,
de ser odiada.

De fechar os olhos,
de andar no escuro,
de trovões e raios,
de me sentir só.

Tenho medo de tudo um pouco...
Talvez de mim, mais do que de qualquer outra coisa.

Do que possa fazer,
do que possa pensar,
do que possa sentir
ou deixar de sentir.

Tenho medo dos meus pensamentos.
De errar,
de pedir o perdão que não mereço.

Tenho medo de sentir...
E isso faz toda a diferença.

domingo, 9 de março de 2008

Impressões

Poucos amigos, nenhum namorado, todos os motivos do mundo para ser feliz. Ao menos é assim que lhe descreveriam os seus amigos nem-tão-íntimos, próximos o suficiente apenas para os programas dominicais. Um filme ao qual ela sempre assiste sozinha, uma conversa sem sentido e sem graça, um lanche do qual se serve apenas para acompanhá-los.
Triste menina, por que anda cabisbaixa? Não vê que lá fora há um mundo cheio de possibilidades? Antes de se sentir só, olhe em volta. A natureza não lhe pede que se esforce; ela silencia em respeito a sua dor.
Busca encontrar algum sentido ‘para o que’ ainda não sabe. Não pede que lhe entendam, nem mesmo que aceitem; só deseja um carinho autêntico de vez em quando. O que sente é tão óbvio... Por que será que ninguém percebe?
Já amou e desamou diversas vezes. Chorou sem motivo, brigou, pediu perdão... já pôs tudo a perder centenas de vezes. Magoou quem mais gostava, quis poder voltar atrás. Percebeu-se incapaz de ‘se perdoar’.
Tentou agradar a todos, já quis salvar o mundo e deu a ele o seu melhor sorriso. Mas nunca foi o suficiente!
Hoje ela anda devagar; quase tropeçando em seu cadarço desamarrado. Uma foto guardada com carinho, rascunhos e rabiscos de cartas apaixonadas. Se apega às boas lembranças, pois esse sentimento, sabe que ninguém lhe poderá negar.

sábado, 8 de março de 2008

amizade

se você pensar bem, sempre houve momentos em que no fundo você sabia serem importantes. aquele instante, pequeno, que a maioria dos humanos permite passar, um rosto pelo qual se tem certeza que os calcanhares devem dar meia volta e seguir mas que, mesmo a certeza estando presente, a inércia é mais forte e continuamos (ou continua-se) a andar. sendo ele humano, ele também sentiu esse momento, não foi por um rosto - agora não é a hora apropriada para romantismos rasgados. sentiu e, a despeito de sua humanidade, parou e voltou, sinceramente acho que estatisticamente, apenas por esse ato, ele deve estar num grupo de um centésimo por milhões. ele parou para um gato, preto, não sejam supersticiosos ainda. o bichano o olhou como se olhasse uma antiga refeição, um tanto de superioridade e de familiaridade, ele olhou o bichano como se olhasse um antigo amigo. as amizades de Carlos são assim, há sempre uma hierarquia inflexível. melhor para os amigos. carlos, esteja claro, é o nome do gato, não ainda, mas depois que José o levar para casa. José é o bípede. mundo estranho esse em que quadrúpedes estão sujeitos a conviverem com bípedes por causa de alimento, víveres, para ser exato, isso teria sido o que Carlos teria pensado se gato não fosse, mas dizemos nós por ele. para que não tenhamos de dizer sempre por outros, mudemos o foco da história.
José nunca teve um animal, nenhum nunca o tinham atraído, mentira, de José, ao narrador cabe apenas a verdade, José nunca tinha sequer pensado em animais. mas aquele gato não foi uma questão de pensamentos, eles simplesmente se acharam. José se achava tão ligado àquele gato que pareciam terem se conhecido quando ambos eram filhotes, e Carlos estava no apartamento havia poucas horas, comido o suficiente por dias, bem verdade, mas as horas do relógios são objetivas, independente das fomes, que são, para homens e gatos, várias. Voltemos ao afeto que serão eles a dar aos ouvintes, a José e a Carlos a história. Carlos não pensava nada, José era só alegria, tinha uma companhia, pensou em locar alguns vídeos para assistir com o novo amigo. fazia tempo que o tocador de dvd não era ligado, visitas não são muito frequentes aqui. música também não era, mas veja que alegria um bichano traz a um lar, faz algumas horas, mais horas do que fazia antes, que ouves-se claramente sons ritmados e melodias variadas que vêm desse apartamento. os vizinhos, sempre chatos, reclamam, Mas que porra, onde já se viu música a uma hora dessa, Você está doido seu viado, não se sabe se isso foi uma pergunta ou uma afirmação, José não se importou, não nos importemos também. o que importa é que o vídeo foi locado e estão, José e Carlos, a assistir a ele. nunca se verá cena tão linda, lado a lado, ao menos um deles está olhando para a tela. então o bandido morre no final. uma cena comum em filmes comuns. isso nunca aconteceria na realidade, o cara descarregou um pente de fuzil e não acertou um tiro, diz José, Não sei, a realidade pode ser bem estranha, responde Carlos.

essa crônica foi para pagar uma dívida e obedecer uma ordem.

terça-feira, 4 de março de 2008

Telemarketing

– [...] Essa que o senhor possui é a versão 2.0.

– Até agora a atualização não apresentou nenhum defeito. Mas se eu decidir devolver?

– Desculpa, o contrato não prevê devolução. O que o senhor deverá fazer, em caso de defeito, é procurar a assistência técnica mais próxima.

– Só espero que haja alguma por perto. E se o defeito for de fabricação?

– Não se preocupe... o produto estará assegurado nesse caso, sem adicionais nos custos, se for comprovada alguma falha técnica. No caso de defeitos não-especificados no manual, o senhor deve se dirigir ao balcão de reclamações...

– Sabia que estava faltando alguma coisa! A minha veio sem manual.

– O senhor por acaso teria um comprovante de compra? Porque sem ele é inviável qualquer tipo de reclamação.

– Sabe o que é? É que eu ganhei de brinde em um desses sites de relacionamentos...

– Os procedimentos adotados na nossa companhia visam o bom atendimento e a satisfação dos nossos clientes; mas não podemos ajudá-lo caso não seja comprovada a aquisição dos nossos serviços, através da compra legítima e legal. Sinto muito.




*caiu a ligação*




Acreditem ou não... essa foi uma conversa [adaptada] de bate-papo. Ah... o “produto” sobre o qual estão falando não é um eletrodoméstico, mas uma pessoa, em sua versão 2.0 (piada interna). Não... não vou contar com quem tive essa conversa altamente produtiva. X)

segunda-feira, 3 de março de 2008

Lembranças

Cenas corriqueiras me remetem à infância: ao tempo em que minhas únicas preocupações eram 'saber quantas moedas se faziam necessárias' e 'ter os meus pais sempre por perto'. Hoje as moedas não mais me impressionam; e não temo [como antes] não encontrar os meus pais ao chegar em casa.

O cheiro da grama recém-cortada, o estalar dos beijos da minha mãe... Tudo isso em mim permanece de alguma forma. A primeira escola, os amigos queridos, os planos de fugir de casa. É... fugir de casa! Qual a criança que nunca se irritou com a mãe, juntou os brinquedos na mochila e pensou em sair, mundo afora?

A minha avó não preparava bolinhos. Mas, sempre que podia, fazia questão de nos agradar. Na época, eram cerca de 8 netos. Esses, seus por natureza; outros tantos, do coração. Lembro também que de vez em quando algum de nós aprontava. Então ela gritava "ô, menino!" e sabíamos que alguém em casa iria apanhar.

Essa saudade aumenta a minha fragilidade. Não falo apenas por mim, egoísta e enganadora, mas por uma lembrança compartilhada com ternura e bondade.

Recordações que me fazem bem, que me trazem um vazio, que me fazem chorar. Sentimentos há muito esquecidos, mas que vêm e vão, só para me lembrar que, enfim, fui feliz.

domingo, 2 de março de 2008

Você vem sempre aqui?

– Oi. Você vem sempre aqui?
– Ah, não... esse papinho besta não... Pelo amor de Deus! Vocês homens poderiam tentar ser mais originais de vez em quando! Acham mesmo que conquistam alguma mulher assim?
– Mas eu só queria...
– Eu sei, eu sei. Um cafezinho agora, uns beijinhos mais tarde e depois, quem sabe, conhecer meu apartamento. Vocês acham que todas nós somos bobas? Fáceis? Carentes?
– Mas eu não...
– Eu sei... Você é diferente de todos os outros; é claro!
– Não, moça, você não está entendendo.
– Quer saber? Não estou interessada!
– Nem eu!
– Que? Como assim?
– Não estava dando em cima de você. Aliás, eu tenho namorada. Estava apenas querendo saber se o ônibus costuma demorar aqui, nesse ponto.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Curiosidade

– Mãe... Eu tava aqui pensando... O que é que determina a moda?
– As tendências... sei lá! Mas por que você está me perguntando isso?
– Porque eu ouvi o Paulinho falar que o amor está fora de moda.
– Como assim?
– Eu perguntei se ele me amava. E ele respondeu que “não... amar está fora de moda”.
– Ora essa!

[a menina dá as costas, voltando logo em seguida]

– Mãe... é possível que alguém um dia se apaixone por mim?
– Sim, meu amor... é perfeitamente possível. Mas, por quê?
– Ah, todas as minhas amigas têm paqueras, só eu não tenho ninguém!
– Vai ver que existe alguém que gosta de você, mas não teve coragem de se declarar.
– Sendo assim, eu posso ou não considerar que esse alguém esteja apaixonado?
– Pode sim.
– Hum... Então existem umas 50 pessoas apaixonadas por mim!
– Como assim, menina?
– As minhas amigas dizem que sabem que um cara está apaixonado quando ele fica olhando de um jeito diferente, quando ele às vezes desvia o olhar quando percebe que elas estão olhando... essas coisas.
– Mas é cada uma que eu vejo!

Madrugada

Faz frio lá fora e tudo o que desejo nesse instante é uma xícara de café. No momento, escrevo como forma de evitar a solidão, já que durante meses busquei companhias que me fizessem bem, que acalmassem o meu espírito e aquecessem o meu coração, e acabei por não encontrá-las. Tudo o que encontrei foram palavras vazias, gestos sem sentido, e outros mecanizados, sem ternura.

Escrevo como forma de desabafo, para pedir ajuda, receber perdão. Peço a você, minha amiga, que me entenda. Que perdoe se não estiver sendo claro o suficiente, mas é que já é tarde; estou cansado e confuso. Não tive coragem de acender as luzes, pois todos estão dormindo.

Por mais que saiba que tudo passará pela manhã, durante as madrugadas fico triste, pois me sinto sozinho. Por muitas vezes apenas me encolhi em um canto e tentei sufocar o choro para que não despertasse a minha mãe que trabalha o dia inteiro e que não merece ter o seu descanso interrompido.

É um sentimento tão estranho esse que toma conta de mim... Quero chorar, desaparecer, mas ao mesmo tempo, tenho medo. Medo de me prostrar, de não conseguir resistir às pressões... a mim!

A vista dói, sinto meus olhos pesados, graças ao inchaço das minhas pálpebras. Não sei se terei coragem de lhe entregar essa carta, mas... como eu gostaria que soubesse de tudo o que se passa comigo! Talvez, conscientemente eu não queira... mas a fantasia de entregar-lhe essa carta é quem me dá motivação a continuar escrevendo.

Escrevo já sem pudor ou vertigem, mas com uma certa tristeza. Escrevo a torto e a direito, como um inconseqüente que apronta...

Queria desabafar sobre a minha vida, sobre o que tem acontecido comigo desde a última vez em que nos vimos.

Lembra da Silvinha, aquela menina que lhe apresentei há uns anos? Pois é... Depois de ter me deixado louco de amores, ela me abandonou. Disse que precisava se afastar por uns tempos, que esperava que eu ficasse bem, mas que não dava mais. Isso me magoou tanto, você nem imagina! Todos os dias eu ficava a pensar nela, na esperança de que voltasse atrás. Mas isso já faz um ano. Na verdade, hoje é exatamente o aniversário dessa sua decisão de me deixar. Talvez por isso esteja escrevendo para lhe contar. Ah, Silvinha, por que fez isso comigo? Por que me quer assim tão mal? Não vê que estou sofrendo?

Minha boa amiga... só com você posso contar nesse momento de tristeza. Sei que não está aqui comigo, mas é como se pudesse lhe sentir me abraçar. Estou tão triste! Desejava agora o teu colo para me mimar, mas sei que não posso; estamos longe.

O dia está amanhecendo... Vou juntar essa carta às tantas outras que a Silvinha mandou devolver.

Espero vê-la um dia.


J.M.

Conversa de Elevador

– Desce?

Você já ouviu a expressão “conversa de elevador”? Pois bem... Dia após dia, o Miguel ouve histórias incompletas no elevador em que trabalha como ascensorista, o que lhe deixa quase sempre curioso. É sempre assim: alguém entra, destrinchando a vida alheia, contando todos os seus pormenores, mas na hora em que a história começa a ficar interessante, é chegada a hora de partir.

– Tchau.
– Até logo.
– Desce.

A história do amante traído pelo seu legítimo rival (o marido da ilustre senhora) desafiava a imaginação do jovem, que pouco conhecia da alma feminina.

– Sobe!
– Vou no próximo, obrigada.
– Sabe o Paulinho, do 302?
– Sei, sim. Aquele menino é uma peste... Nunca vi mais danado!
– Pois é... Dizem que foi expulso de duas escolas esse semestre.
– Mas por quê? O que o garoto aprontou?
– Bom... Na primeira escola, ele estourou bombinhas no banheiro masculino. Aí você já viu, né? Foi aquela confusão!
– Êta menino encapetado!
– Você precisa saber o que ele fez na segunda...
– E o que foi?
– A diretora queria vê-lo. Devia ter aprontado alguma, sendo chamado para levar advertência. O sinal tocou e logo após houve uma confusão no pátio. A diretora precisou sair e pediu que ele esperasse dentro da sala.
– E aí?
– Sobe?
– Sim senhora, dona Lúcia. Bom dia.
– Bom dia.
– Quando ela saiu, o menino estava sentado, mas logo aproveitou que estava sozinho e foi fazendo arte.
– Meu Deus...
– Pois é. O danado revirou os papéis que estavam na mesa, derrubou cola em alguns deles, e colocou o restante, que havia ficado no tubo, dentro de uma gaveta onde estavam guardados alguns documentos importantes. Aí já viu, né? Expulsão.
– É... Esse garoto tem mesmo cara de ser perturbado. Os pais deveriam fazer alguma coisa.
– Eu já sugeri à Amélia, mãe dele, que o leve ao doutor Raul. Ele é um ótimo psiquiatra; vai dar um jeito no garoto.
– Mas você acha mesmo necessário?
– Se o Raul não der um jeito nele, não sei quem pode...

[porta abre]

– É o meu.
– Tchau, Silvinha.
– Tchau, Margot...

E lá se foi um dos elos fundamentais nas conversas de elevador; alguém disposto a compartilhar das informações que estão sendo passadas: a famosa vizinha fofoqueira. É... Mesmo não tendo sido ela a “contadora” da história, em nenhum momento me pareceu fatigada ou incomodada com a inconveniência, que assim seria percebida por algum um outro morador, menos dado a essas bestialidades.

­– Desce.
– Mas já? Então passou da minha hora de descer...
– Desculpa, dona Margot. É que eu não podia perder o fim dessa história.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Bruninha

Dois amigos em um bar

— Sabe a Bruninha?

— A do 302?

— Sim, ela.

— Que tem?

— Ela me lembra meus amores da adolescência.

— Hmm...

— Aquele jeito doce, aqueles olhos verdes, aquela mancha no pescoço.

— Que mancha?

— Não importa. Ela é uma fofa.

— Que papo de fofa é esse?

— Eu fugiria com ela... pra longe!

— Hmm...

— Voltaríamos dois meses depois, ela já grávida do primeiro filho. Betinho... isso. Depois nasceria a Rebeca.

— Filhos pra quê?

— Eu seria um bom marido pra ela, sabe? Sairíamos aos fins de semana e deixaríamos os filhos com a minha mãe. Ela iria adorar os netos.

— Olha, a verdade é que...

— Espera, espera... Mas eu me separaria da Bruninha dez anos depois. Ela engordaria e não faria mais panquecas pra família. Agora só iria querer saber de assistir a novela das seis e de fofocar com a vizinha. Maldita Rosemília.

— Tá ficando tarde.

— Eu fugiria com uma aluna minha depois disso. E sem assinar os papéis do divórcio. Mas ela me roubaria os cartões de crédito. Eu ficaria revoltadíssimo, bêbado, e a deixaria pelada no hall da pousada. Sim. Depois de passar 3 meses preso, eu me candidataria a vereador, só pra provar que o povo elege os candidatos sem ligar para o passado deles. É. Depois estaria no Jô Soares falando sobre minha vida, quando me lembraria da Bruninha. O amor da minha vida. Beijaria o Jô, sairia correndo pra casa e reencontraria a Bruninha, agora magra depois do SPA, que me perdoaria e faríamos juras eternas, depois de muito sexo, é claro.

Ele, sozinho na mesa do bar, fecha os olhos e sorri tolamente, com a visão da Bruninha em seus Braços. Uma mulher entra no bar

— Vai já pra casa homem, as crianças tão te esperando.

— Ok amor... – ainda sorrindo de olhos fechados.

— Anda, homem de Deus.

— Me deixa sonhar, Rosemília!

Intervenção Urbana.

Ah, a cidade, o ápice da civilização... onde encontramos tudo que procuramos, tudo de bom e melhor ao nosso alcance, tão linda... suas ruas, seus sinais, seus shoppings, seus prédios resideciais, comerciais, sua prestação de serviços, seus mendigos, suas esmolas, seu policiais, seus bandidos, suas boates, seus moteis, seus pastéis, seus jovens, seus asilos, seus garis, seus porcos!

A cidade inventa sua lei que impera sob todos os cidadãos dando uma falsa e [in]tensa impressão de ordem. Intervir para mostrar sua verdadeira face, tanto a carniça como a beleza apodrecida e domesticada. Fazer a arte emergir do caos através da ação.

Para ser feliz

Textinho interessante...



É preciso não pensar na idade mas vive-la; Saber ser feliz é preciso antes de tudo encontrar a paciência, suprir a necessidade da mente em busca do dia-a-dia na consciência de entender que um dia você pode lutar para vencer mesmo que antes já tivesse sido derrotado, mas sem nunca perder as esperanças. Porque o comodismo é a injustiça da liberdade que provoca o transtorno do pecado e o desamor, a condição de caminhar pela paz. E a vida é todo espaço de tempo que temos para pensar no momento em que estamos consciente do que fazemos em benefício do amanhã.



Mandei esse texto pra "Filha do Céu", axei a cara dela ^^